quarta-feira, 11 de março de 2026

O tempo podia ajudar… 🌧️🌤️


Há alturas em que o tempo parece ter vontade própria — e não falo apenas do que passa nos relógios, mas daquele que manda no céu, no vento e na chuva. Esse tempo, que tantas vezes dita o ritmo de quem vive ligado à terra.

A Depressão Kristin passou com força, como tantas outras tempestades de inverno, e deixou marcas nos pinhais e nos terrenos. Árvores arrancadas pela raiz, outras partidas a meio, muitas tombadas no chão. Um cenário que quem trabalha com a floresta conhece bem: quando o vento leva a melhor, o trabalho multiplica-se.

Mas depois da tempestade vem outra luta — a de esperar.

Já passou cerca de um mês e meio e, olhando para os terrenos, parece que quase tudo ficou na mesma. Não por falta de vontade de trabalhar, mas porque o tempo não tem ajudado. A chuva insiste em cair, os caminhos ficam pesados, os terrenos encharcados. Ir cortar e transportar madeira assim torna-se difícil, muitas vezes impossível. Não é apenas uma questão de esforço; é também de segurança e de conseguir fazer o trabalho como deve ser.

Enquanto os pinhais esperam por dias mais secos, o trabalho continua em casa. Há sempre lenha para arrumar, troncos para cortar, pedaços que estavam guardados à espera de melhores dias — talvez da primavera — para serem tratados com mais calma. Agora vão sendo preparados, serrados e organizados.

É um trabalho que também exige tempo e paciência. Cada pedaço de madeira arrumado é uma pequena forma de preparar o que vem a seguir.

Porque quando o tempo finalmente ajudar — quando o sol secar os caminhos e os tratores puderem entrar sem medo de atolar — então será altura de voltar aos pinhais. Cortar o que ficou por tratar, transportar as árvores que ainda estão espalhadas pelo chão e trazer essa madeira para o seu lugar.

E aí, a lenha que agora se arruma em casa dará lugar à que ainda espera lá fora.

No fundo, quem vive ligado à terra aprende cedo uma lição simples: há coisas que dependem de nós… e outras que dependem do tempo. E quando o tempo não ajuda, resta continuar a fazer o que é possível, preparando o caminho para quando ele finalmente decidir colaborar.

Porque na floresta, como na vida, tudo tem o seu tempo. 🌲

domingo, 8 de março de 2026

Aprendizagens para a vida

Li dois livros sobre dinheiro há mais de 15 anos que, curiosamente, ainda hoje influenciam a forma como penso sobre finanças pessoais.

Um foi o Pai Rico, Pai Pobre. O outro foi O Homem Mais Rico da Babilónia.

Na altura achei aquilo quase revolucionário. Hoje olho para trás e percebo que algumas das ideias que lá estavam ficaram mesmo comigo. Outras… continuam a parecer-me um bocadinho optimistas demais.

Uma das ideias que ficou foi a regra de pagar a mim próprio primeiro.

Na prática significa algo muito simples: assim que o salário entra na conta, tirar logo uma parte para poupança. No meu caso, os famosos 10%.

Não no fim do mês. No início. Porque no fim do mês normalmente já não sobra nada.

Outra ideia que ficou foi viver abaixo das possibilidades.

Isto parece básico, mas é provavelmente uma das coisas mais difíceis de fazer quando os rendimentos começam a subir. É muito fácil aumentar o estilo de vida à mesma velocidade (ou mais rápido) do que aumenta o salário.

Um carro um pouco melhor. Uma casa um pouco maior. Mais umas subscrições aqui e ali.

De repente ganha-se mais, mas a folga financeira continua exatamente igual.

Estes livros ajudaram-me a perceber uma coisa simples: a diferença entre o que ganhamos e o que gastamos é liberdade.

E isso, ao longo dos anos, faz muita diferença.

Outra ideia que aparece muito nestes livros é o tal poder dos juros compostos e do investimento ao longo do tempo.

Na altura parecia quase teoria.

Hoje percebo melhor a lógica: pequenas quantias investidas de forma consistente durante muitos anos acabam por ganhar um peso interessante. Não porque exista algum truque mágico, mas porque o tempo faz grande parte do trabalho.

Claro que depois há a parte que sempre me pareceu… um pouco mais difícil de replicar.

Refiro-me às histórias de comprar imóveis super baratos e vendê-los pouco tempo depois pelo dobro do preço.

Nos livros isso aparece com uma facilidade impressionante. Quase parece que basta sair à rua e tropeçamos em três oportunidades dessas.

Confesso que, pelo menos no meio em que vivo, nunca vi nada parecido com essa frequência.

Talvez existam.

Talvez aconteçam para quem está mesmo dentro do mercado.

Mas não é propriamente algo que apareça todas as semanas.

Dito isto, se alguém souber onde se compram casas ao preço da chuva para vender pelo dobro duas semanas depois… aceitam-se dicas.

Apesar destas partes mais “optimistas”, a verdade é que os princípios básicos destes livros continuam a fazer sentido muitos anos depois.

Poupar primeiro.

Gastar com alguma cabeça.

Evitar dívidas desnecessárias.

E investir de forma consistente ao longo do tempo.

Nada disto é muito excitante.

Mas provavelmente é por isso mesmo que funciona.

terça-feira, 3 de março de 2026

Aumento de 50€ (ou afinal… 34,50€)

Recebi um aumento.

Assim dito até soa bem, não soa? Cinquenta euros. Redondo. Bonito. Promissor.

Depois vieram os descontos, os impostos, as continhas todas bem feitas…E afinal o aumento foi de 34,50€.

Quase dá para emoldurar o recibo.

No papel, parece um progresso. Na conta bancária, parece troco.

Mas vamos ser justos: 34,50€ não são nada… mas também não são tudo. Então fiz o exercício prático.

Com 34,50€ em Portugal, dá para:

– Um depósito de gasolina… mais ou menos até meio.
– Uma ida ao supermercado (sem exageros, nada de salmão selvagem nem pistácios).
– Cobrir a conta da água e ainda sobrar para um café fora por semana (sem pastel de nata, que isto não estica assim tanto).
– Comprar dois sacos de ração de marca branca e ainda discutir mentalmente se levas detergente ou deixas para o próximo mês.

Se for para poupar?

34,50€ por mês dão 414€ ao fim de um ano.
Já paga o seguro do carro, ou ajuda na revisão.
Ou compensa aquele eletrodoméstico que decidiu “ir desta para melhor” fora da garantia — porque os eletrodomésticos têm um radar especial para os piores momentos.

Agora, vamos falar do outro lado da moeda.

Subiu o supermercado. Subiu a luz. Subiu o gás. Subiu o café.

O aumento não acompanhou nada disto — mas teve a gentileza de aparecer para nos lembrar que “estão a fazer um esforço”.

E eu até agradeço. A sério.
Porque todos os euros contam.

Mas também não consigo evitar aquela ironia involuntária: anunciam 50€, aplaude-se 50€, fala-se em 50€… e ninguém menciona que os 15,50€ ficaram pelo caminho, muito provavelmente a equilibrar outras contas — que não as minhas.

💭 Como é que este aumento vai realmente fazer a diferença no nosso bolso, se tudo o resto continua a subir mais depressa?

E depois há a parte que custa mais admitir.

Eu até entendia um aumento pequeno — se não olhasse para tudo o que faço.

Para as responsabilidades acumuladas.
Para as tarefas feitas em contra-relógio.
Para os almoços que deviam ser de uma hora e meia e acabam por ser de uma hora.
Para a assiduidade.
Para a pontualidade.
Para o esforço constante de não falhar.

E, querendo ou não, comparo.

Um colega está cá há vinte e tal anos, outro há cinco, outra há dois anos e meio e eu há um ano e meio e tanto o que está cá há mais anos como a colega que está há mais um ano do que eu, não conseguem fazer uma semana de trabalho completa, quanto mais um mês...

E a diferença salarial não é proporcional ao trabalho que efetivamente se faz — mas sim ao que alguém decidiu, algures, que “deve” ser o salário de cada um.

E é aqui que a ironia dá lugar à frustração.

Porque não se trata apenas de 34,50€.
Trata-se de reconhecimento.
De justiça.
De sentir que o empenho tem peso real — e não apenas simbólico.

No fim, a verdade é simples:

Não é um aumento que muda vidas.
É um aumento que ajuda a que a vida não pese ainda mais.

Mas às vezes o que mais pesa nem é a conta bancária.
É a sensação de que damos mais do que aquilo que nos devolvem.

E isso, infelizmente, não cabe em 34,50€.

segunda-feira, 2 de março de 2026

Dias tristes...


Por aqui, março nunca será um bom mês.

Ontem fez cinco anos que o meu pai partiu. Hoje fazem dezasseis que um dos meus bebés partiu também — expulsa do meu útero num dia horrível passado em Coimbra, na Maternidade Bissaya Barreto, seguido de uma noite ainda pior, naquela ala onde colocam as mães que perdem os seus bebés ao lado das que acabaram de dar à luz.

Há dores que não se explicam. Só quem passou pelo mesmo entende este desabafo, este nó na garganta que não desaparece com o tempo. Aprende-se a viver com ele, mas ele nunca deixa de existir.

O dia 19, para mim, deixou de ser o Dia do Pai. Será sempre o dia do Batismo do meu filho, há vinte anos — uma memória de luz no meio de tantas sombras.

Março traz-me sempre este peso. Mas também me lembra que, mesmo nos dias mais tristes, o amor continua a existir — na saudade, na memória e nos que permanecem ao nosso lado.