quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Sol por onde andas?

Faz-me falta a presença do sol. Do calor, nem tanto — que disso já sabemos que em excesso também cansa — mas do sol, sim. Daquela luz que nos entra pelos olhos e parece alinhar-nos o humor sem pedir licença. Ou será só impressão minha que, quando o sol aparece, andamos todos um pouco mais felizes?

Os dias cinzentos têm este dom estranho de nos tornar mais lentos por dentro. Acordamos, espreitamos pela janela e, se vemos nuvens carregadas, parece que o corpo suspira antes mesmo de começar o dia. O guarda-chuva passa a extensão natural do braço e a escolha da roupa deixa de ser estética para ser estratégica. É o eterno “abre chapéu, fecha chapéu”, num jogo quase irónico com o céu, que ameaça mas nem sempre cumpre — ou cumpre quando menos esperamos.

Não podia a chuva cair só de noite? Enquanto dormimos, embalada, a lavar as ruas, as árvores e as preocupações do dia anterior. De manhã, acordávamos com o cheiro a terra molhada, o ar limpo e o sol a espreitar, como quem diz: “pronto, já tratei de tudo”. Mas não. A chuva gosta de nos acompanhar nas horas de ponta, nos passeios apressados, nas deslocações inevitáveis.

E depois há a calçada portuguesa. Tão bonita nas fotografias, tão identitária, tão nossa. Um verdadeiro cartão de visita para quem vem de fora. Mas quem tem de andar nela à chuva sabe que aquela beleza cobra o seu preço. Basta acelerar um pouco o passo, distraímo-nos por um segundo, e lá está o perigo iminente: escorregar e estatelar-se de forma pouco elegante, perante olhares solidários… ou disfarçadamente divertidos.

Caminhar à chuva passa a ser um exercício de concentração. Olhos no chão, passos calculados, corpo ligeiramente tenso. Não é só chegar ao destino; é chegar inteiro. Talvez por isso, quando o sol aparece, mesmo no inverno, sentimos um alívio coletivo. As pessoas caminham mais depressa, mas com leveza. As esplanadas enchem-se, os sorrisos surgem com mais facilidade e até a calçada parece menos traiçoeira.

O sol tem este efeito quase mágico: não resolve problemas, mas torna-os mais suportáveis. Não muda a vida, mas muda a forma como a encaramos. Com sol, o café sabe melhor, a conversa flui, e até o trânsito parece menos caótico. É como se a luz nos lembrasse que há sempre uma pausa possível, um intervalo entre as nuvens.

Talvez não seja só impressão minha. Talvez sejamos mesmo criaturas solares, dependentes dessa claridade para equilibrar o humor e a esperança. E enquanto o sol não decide ficar, vamos continuando neste ritual de abrir e fechar chapéus, de caminhar com cuidado e de suspirar sempre que o céu ameaça mais uma vez.

Mas quando ele voltar — porque volta sempre — prometo reparar melhor. Parar um pouco, levantar o rosto e agradecer. Nem que seja só por nos permitir andar na calçada portuguesa sem medo de escorregar. ☀️

1 comentário:

  1. O sol tem mesmo esse poder. É cientifico.

    Adoro o sol, calor também, mas não em demasia.

    Cláudia - eutambemtenhoumblog

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