Mais um fim de semana, mais um aniversário da sogra na sexta à noite, ofereci-lhe o menino da foto porque o dela morreu e as galinhas ficaram sozinhas. Mais um sábado de lenha e um domingo de aniversário de uma das cunhadas...descanso...onde andas...
Recebi um aumento.
Assim dito até soa bem, não soa? Cinquenta euros. Redondo. Bonito. Promissor.
Depois vieram os descontos, os impostos, as continhas todas bem feitas…E afinal o aumento foi de 34,50€.
Quase dá para emoldurar o recibo.
No papel, parece um progresso. Na conta bancária, parece troco.
Mas vamos ser justos: 34,50€ não são nada… mas também não são tudo. Então fiz o exercício prático.
Com 34,50€ em Portugal, dá para:
– Um depósito de gasolina… mais ou menos até meio.
– Uma ida ao supermercado (sem exageros, nada de salmão selvagem nem pistácios).
– Cobrir a conta da água e ainda sobrar para um café fora por semana (sem pastel de nata, que isto não estica assim tanto).
– Comprar dois sacos de ração de marca branca e ainda discutir mentalmente se levas detergente ou deixas para o próximo mês.
Se for para poupar?
34,50€ por mês dão 414€ ao fim de um ano.
Já paga o seguro do carro, ou ajuda na revisão.
Ou compensa aquele eletrodoméstico que decidiu “ir desta para melhor” fora da garantia — porque os eletrodomésticos têm um radar especial para os piores momentos.
Agora, vamos falar do outro lado da moeda.
Subiu o supermercado. Subiu a luz. Subiu o gás. Subiu o café.
O aumento não acompanhou nada disto — mas teve a gentileza de aparecer para nos lembrar que “estão a fazer um esforço”.
E eu até agradeço. A sério.
Porque todos os euros contam.
Mas também não consigo evitar aquela ironia involuntária: anunciam 50€, aplaude-se 50€, fala-se em 50€… e ninguém menciona que os 15,50€ ficaram pelo caminho, muito provavelmente a equilibrar outras contas — que não as minhas.
💭 Como é que este aumento vai realmente fazer a diferença no nosso bolso, se tudo o resto continua a subir mais depressa?
E depois há a parte que custa mais admitir.
Eu até entendia um aumento pequeno — se não olhasse para tudo o que faço.
Para as responsabilidades acumuladas.
Para as tarefas feitas em contra-relógio.
Para os almoços que deviam ser de uma hora e meia e acabam por ser de uma hora.
Para a assiduidade.
Para a pontualidade.
Para o esforço constante de não falhar.
E, querendo ou não, comparo.
Um colega está cá há vinte e tal anos, outro há cinco, outra há dois anos e meio e eu há um ano e meio e tanto o que está cá há mais anos como a colega que está há mais um ano do que eu, não conseguem fazer uma semana de trabalho completa, quanto mais um mês...
E a diferença salarial não é proporcional ao trabalho que efetivamente se faz — mas sim ao que alguém decidiu, algures, que “deve” ser o salário de cada um.
E é aqui que a ironia dá lugar à frustração.
Porque não se trata apenas de 34,50€.
Trata-se de reconhecimento.
De justiça.
De sentir que o empenho tem peso real — e não apenas simbólico.
No fim, a verdade é simples:
Não é um aumento que muda vidas.
É um aumento que ajuda a que a vida não pese ainda mais.
Mas às vezes o que mais pesa nem é a conta bancária.
É a sensação de que damos mais do que aquilo que nos devolvem.
E isso, infelizmente, não cabe em 34,50€.
































