Ontem fez cinco anos que o meu pai partiu. Hoje fazem dezasseis que um dos meus bebés partiu também — expulsa do meu útero num dia horrível passado em Coimbra, na Maternidade Bissaya Barreto, seguido de uma noite ainda pior, naquela ala onde colocam as mães que perdem os seus bebés ao lado das que acabaram de dar à luz.
Há dores que não se explicam. Só quem passou pelo mesmo entende este desabafo, este nó na garganta que não desaparece com o tempo. Aprende-se a viver com ele, mas ele nunca deixa de existir.
O dia 19, para mim, deixou de ser o Dia do Pai. Será sempre o dia do Batismo do meu filho, há vinte anos — uma memória de luz no meio de tantas sombras.
Março traz-me sempre este peso. Mas também me lembra que, mesmo nos dias mais tristes, o amor continua a existir — na saudade, na memória e nos que permanecem ao nosso lado.