terça-feira, 3 de março de 2026

Aumento de 50€ (ou afinal… 34,50€)

Recebi um aumento.

Assim dito até soa bem, não soa? Cinquenta euros. Redondo. Bonito. Promissor.

Depois vieram os descontos, os impostos, as continhas todas bem feitas…E afinal o aumento foi de 34,50€.

Quase dá para emoldurar o recibo.

No papel, parece um progresso. Na conta bancária, parece troco.

Mas vamos ser justos: 34,50€ não são nada… mas também não são tudo. Então fiz o exercício prático.

Com 34,50€ em Portugal, dá para:

– Um depósito de gasolina… mais ou menos até meio.
– Uma ida ao supermercado (sem exageros, nada de salmão selvagem nem pistácios).
– Cobrir a conta da água e ainda sobrar para um café fora por semana (sem pastel de nata, que isto não estica assim tanto).
– Comprar dois sacos de ração de marca branca e ainda discutir mentalmente se levas detergente ou deixas para o próximo mês.

Se for para poupar?

34,50€ por mês dão 414€ ao fim de um ano.
Já paga o seguro do carro, ou ajuda na revisão.
Ou compensa aquele eletrodoméstico que decidiu “ir desta para melhor” fora da garantia — porque os eletrodomésticos têm um radar especial para os piores momentos.

Agora, vamos falar do outro lado da moeda.

Subiu o supermercado. Subiu a luz. Subiu o gás. Subiu o café.

O aumento não acompanhou nada disto — mas teve a gentileza de aparecer para nos lembrar que “estão a fazer um esforço”.

E eu até agradeço. A sério.
Porque todos os euros contam.

Mas também não consigo evitar aquela ironia involuntária: anunciam 50€, aplaude-se 50€, fala-se em 50€… e ninguém menciona que os 15,50€ ficaram pelo caminho, muito provavelmente a equilibrar outras contas — que não as minhas.

💭 Como é que este aumento vai realmente fazer a diferença no nosso bolso, se tudo o resto continua a subir mais depressa?

E depois há a parte que custa mais admitir.

Eu até entendia um aumento pequeno — se não olhasse para tudo o que faço.

Para as responsabilidades acumuladas.
Para as tarefas feitas em contra-relógio.
Para os almoços que deviam ser de uma hora e meia e acabam por ser de uma hora.
Para a assiduidade.
Para a pontualidade.
Para o esforço constante de não falhar.

E, querendo ou não, comparo.

Um colega está cá há vinte e tal anos, outro há cinco, outra há dois anos e meio e eu há um ano e meio e tanto o que está cá há mais anos como a colega que está há mais um ano do que eu, não conseguem fazer uma semana de trabalho completa, quanto mais um mês...

E a diferença salarial não é proporcional ao trabalho que efetivamente se faz — mas sim ao que alguém decidiu, algures, que “deve” ser o salário de cada um.

E é aqui que a ironia dá lugar à frustração.

Porque não se trata apenas de 34,50€.
Trata-se de reconhecimento.
De justiça.
De sentir que o empenho tem peso real — e não apenas simbólico.

No fim, a verdade é simples:

Não é um aumento que muda vidas.
É um aumento que ajuda a que a vida não pese ainda mais.

Mas às vezes o que mais pesa nem é a conta bancária.
É a sensação de que damos mais do que aquilo que nos devolvem.

E isso, infelizmente, não cabe em 34,50€.

4 comentários:

  1. A teia dos 20 mais x3 de março de 2026 às 15:00

    Olá Marisa,
    Mais uma vez um excelente texto e com pontos bem interessantes.

    Sim, 34,50€ não pagam a responsabilidade de trabalho bem feito e de uma pessoa comprometida com as suas funções, e que não ande a faltar a torto e a direito.

    Gostei do balanço do que pode ou não pagar esse aumento mensal, ajuda? claro, mas para os aumentos em TUDO perde-se numa coisa apenas... como essa fatura da água p.e. E infelizmente não foi só água que aumentou, e assim sendo fica a pergunta: o que cobre o resto dos aumentos generalizados? ... o salário anterior.

    Infelizmente é isso... sempre o mesmo, todos os anos, mas este ano noto muito na alimentação, foi um aumento exagerado. E o meu ordenado subiu 25€, sem descontos vá, portanto... menos ainda.

    Vamos ver como corre o ano... não é fácil assim.

    Beijinho

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  2. Para uns, tudo
    para outros, é o que se vê ^,^))))
    Belo resto de Semana em toda a harmonia, beijinhos.

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  3. O meu ordenado nem subiu. Aliás, até houve um erro e desceu. Uma tristeza, que entretanto já corrigiram.
    Mas vou ganhar um pouco mais sim, por causa do dependente e da tabela do IRS. Como pouco ganho acima do mínimo, a minha taxa de IRS é ainda mais pequena. Qualquer dia nem desconto, pois atinjo o mínimo.

    Mas sim, normalmente os nossos aumentos não cobrem os aumentos do resto e isso, devia ser obrigatório. Mas torna-se uma bola de neve.

    Já nem sei que diga ou faça. Parece que passamos a vida a contar tostões, para não sairmos da cepa torta.

    E eu percebo o que dizes dos colegas. Como já deves ter lido, a colega que me veio substituir, ganha mais 50€ que eu! E veio-me substituir e tudo o que sabe, fui eu que ensinei.

    Mas claro, depois eu vou cobrar isto. Não quero voltar para a empresa, mesmo sendo aqui ao pé!

    Cláudia - eutambemtenhoumblog

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  4. olá
    Não esta fácil ... as empresa nem sempre conseguem tb aumentar aos seus cliente para conseguir cumprir também os restantes aumentos.
    Está difícil contratar ! muitos tb querem ganhar bem mas o trabalho não aparece feito ... licenciados sem experiencia mas os ordenados acho absurdo!! tenho um aqui que se acha a ultima bolacha não sabe nada .. mas humildade falta apenas tem um curso...

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