Cá por casa, estamos na reta final do relatório de estágio do filhote.
E confesso-vos uma coisa: eu já fiz muitos trabalhos na vida, mas isto... isto é outro campeonato.
Lembro-me perfeitamente dos tempos da escola.
Um trabalho começava muito antes da primeira página. Começava pela capa.
Havia cartolinas coloridas, letras desenhadas à mão, fotografias recortadas de revistas, pequenos desenhos, criatividade por todo o lado. Cada aluno queria que o seu trabalho fosse diferente dos restantes. Aliás, muitas vezes, quem apresentasse a capa mais original já começava a conquistar alguns pontos.
Os professores repetiam:
"Não copiem uns dos outros."
Hoje tenho a sensação de que dizem exatamente o contrário:
"Façam todos iguais... mas cuidado para não se enganarem nas margens."
Agora existe um modelo para tudo.
A letra já está escolhida.
O tamanho também.
As margens também.
Os espaçamentos também.
Até parece que o trabalho já vem montado; nós limitamo-nos a preencher os espaços em branco.
E depois entra em cena a famosa APA 6.
Nunca pensei que quatro letras conseguissem provocar tantos suspiros.
APA para citar.
APA para referenciar.
APA para confirmar.
APA porque falta um ponto.
APA porque sobra uma vírgula.
APA porque o itálico ficou onde não devia.
Começo seriamente a desconfiar que, se o café da manhã não estiver citado segundo a APA, também perde validade científica.
Depois aparecem aquelas secções que, para quem não vive no meio académico, parecem ter sido inventadas para aumentar o número de páginas.
Resumo.
Abstract.
Palavras-chave.
Keywords.
Discussão.
Conclusão.
Referências.
Anexos.
E eu pergunto...
Quando é que um simples relatório de estágio passou a parecer um artigo pronto para ser publicado numa revista científica?
A parte da Discussão continua a ser a que mais me intriga.
Durante anos bastava explicar o que se fez, o que se aprendeu e o que correu bem ou menos bem.
Agora não.
Agora é preciso discutir os resultados, compará-los com estudos científicos, justificar tudo com autores recentes e escrever de forma impessoal.
Quase espero encontrar um júri internacional à espera daquele relatório.
E depois há o inglês.
Confesso que esta continua a ser a minha maior dúvida.
Se o relatório é escrito em português... porque é que temos de escrever exatamente o mesmo resumo em inglês?
Será que existe um investigador na Austrália que acorda de manhã a pensar:
"Hoje vou ler o Abstract do relatório de estágio de um estudante português."
Tenho algumas dúvidas.
Não me interpretem mal.
Percebo perfeitamente que existam normas. Faz sentido que os estudantes aprendam a pesquisar, a citar corretamente e a apresentar trabalhos com rigor. Essas competências são importantes e fazem parte da formação superior.
Mas tenho saudades da altura em que ainda havia espaço para mostrar um bocadinho de quem éramos. Em que dois trabalhos sobre o mesmo tema conseguiam ser completamente diferentes porque refletiam a personalidade de quem os fazia.
Hoje sinto que estamos numa linha de montagem.
Abre o modelo.
Preenche o modelo.
Confere a APA.
Revê as citações.
Confere outra vez.
Volta às referências.
Confere novamente.
E, já agora... confirma a APA só mais uma vez.
No meio de tudo isto, lá vamos nós ajudando o filhote a montar peça por peça este enorme puzzle chamado "Relatório de Estágio".
No fim, o mais importante é que fique bem feito e que represente o trabalho que realizou durante o estágio.
Mas, entre nós...
Continuo a achar que uma capa bonita nunca fez mal a ninguém.
E continuo convencida de que ensinar rigor nunca deveria significar deixar a criatividade à porta da sala de aula.
Antigamente ensinavam-nos a pensar pela nossa cabeça. Hoje ensinam-nos, acima de tudo, a formatá-la.

Bem.. que confusão, possa.
ResponderEliminarMas na reta final dos meus estudos, 2012, também já tinha algumas dessas exigências. Tipo de letra, formatação da página e n. mínimo de palavras.