sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Mais e mais... chuva...

Mas onde é que andava tanta água?!?!? Eu sei que nos últimos Invernos tem chovido muito pouco mas não havia necessidade de levarmos com essa chuva toda em apenas 3 meses...

Se durante anos ouvimos falar de seca, barragens em mínimos históricos e restrições ao consumo, de repente parece que alguém abriu as comportas do céu. Rios cheios, campos encharcados, estradas cortadas e aquela sensação constante de que “já chega!”. A pergunta é inevitável: afinal, o que está a acontecer com o nosso clima?

Para os agricultores, este cenário é especialmente complicado. A falta de água prejudica culturas durante meses; o excesso destrói em dias. Solos saturados perdem nutrientes, culturas apodrecem e o trabalho de uma época pode desaparecer numa semana de chuva intensa.

A imprevisibilidade é, talvez, o maior desafio

Claro que as barragens cheias são uma boa notícia após períodos de seca prolongada. Mas quando a reposição acontece de forma tão concentrada, surgem novos problemas: erosão, cheias, danos materiais e riscos para a segurança das populações.

O desafio não é apenas “ter água”. É ter água distribuída ao longo do tempo de forma equilibrada.

Mais do que perguntar onde andava tanta água, talvez devamos perguntar: estamos preparados para este novo normal?

Investir em retenção sustentável de água, recuperar solos, modernizar infraestruturas e repensar o ordenamento do território são passos essenciais. A alternância entre seca e chuva extrema não parece ser uma exceção — começa a parecer regra.

E se há algo que estes últimos meses nos ensinaram é que o problema já não é só a falta de água.

É o excesso.
É a intensidade.
É o desequilíbrio.

E isso exige mais do que guarda-chuvas.

Primeiro foi Leiria, seguiu-se Alcácer do Sal, Montemor-o-Velho, Santarém, Coimbra... brevemente "o país está todo debaixo de água", ou pelo menos é essa a sensação quando abrimos as notícias e vemos imagens de ruas transformadas em rios, campos agrícolas submersos e populações em sobressalto. Em Leiria, as cheias trouxeram memórias de outros invernos difíceis. Em Alcácer do Sal, o rio voltou a reclamar espaço. Montemor-o-Velho e Santarém conhecem bem o comportamento imprevisível dos seus cursos de água. E Coimbra, abraçada ao Mondego, volta e meia revive o velho dilema entre proximidade e risco.

Não é coincidência que muitas destas localidades estejam junto a rios. Durante séculos, foi ali que as cidades cresceram: água para consumo, agricultura, transporte e comércio. O problema é que os rios têm memória — e planícies de inundação também.

Ao longo das últimas décadas, ocupámos zonas naturalmente inundáveis com estradas, armazéns, urbanizações e parques industriais. Em anos “normais”, tudo parece tranquilo. Mas quando a precipitação se concentra de forma intensa, o que era exceção volta a acontecer: a água regressa aos espaços que sempre foram seus.

E quando regressa, não pede licença.

As redes sociais amplificam tudo. Um vídeo de uma rua alagada parece sinal de colapso nacional. Claro que há situações graves e prejuízos reais — e esses não devem ser minimizados. Mas também é verdade que episódios localizados criam a sensação de que “o país está todo debaixo de água”, mesmo quando os impactos variam bastante de região para região.

Ainda assim, a repetição destes episódios em diferentes pontos do território revela um padrão preocupante: eventos extremos mais frequentes e mais intensos.

O que costuma acontecer depois?
Passa a chuva, baixa o nível dos rios, limpam-se os estragos… e seguimos em frente. Até ao próximo inverno.

O problema é que este ciclo de reação — em vez de prevenção — sai caro. Muito mais caro do que investir antecipadamente em soluções estruturais: bacias de retenção, recuperação de zonas húmidas, reflorestação adequada, planeamento urbano responsável.

Não estamos “à beira de virar Atlântico”. Mas também não podemos fingir que nada mudou. O equilíbrio climático a que estávamos habituados já não é garantido.

Se antes temíamos a seca prolongada, agora temos de aprender a gerir extremos em ambos os sentidos. Água a menos destrói lentamente. Água a mais destrói depressa.

Talvez a verdadeira questão não seja se o país vai ficar todo debaixo de água.

Talvez seja: vamos continuar a agir como se estes episódios fossem excecionais… ou vamos finalmente aceitar que são parte de uma nova realidade?

1 comentário:

  1. São parte da nossa realidade atual sim, no entanto também me lembro em miúda, 9/10 anos, e ter invernos muito rigorosos e não se via o que se vê hoje...
    E aí entra um bocadinho do que a Marisa também expos no seu texto, a construção.... parqueamentos, estradas, industrias, habitação construída onde não pode, nem é onde não deve, é onde não pode!

    Depois... se Espanha não descarregasse diretamente para nós, também ia ajudar a controlar melhor o nosso fluxo de águas (que bem sabemos, tivemos secas ainda à poucos anos e precisamos de reservar realmente neste tipo de invernos, mas com descargas que não são do que nos caí no território, fica difícil).

    Muito há a dizer... muito mesmo. E a cada dia que passa fico mais apreensiva do quanto tanta gente está a sofrer.
    Beijinho

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