É assim que começam algumas conversas.
Não é “Bom dia”. Não é “Boa tarde”. Não é sequer um “Olá”.
É simplesmente:
— Quero fazer o IMPIC.
E eu fico a olhar para o telefone/computador a pensar:
“Muito bem… e eu quero ganhar o Euromilhões. Estamos os dois com desejos.” 😂
Mas atenção, isto é só o que penso.
Porque aquilo que digo é, naturalmente, muito mais simpático.
Lá faço a minha melhor cara de profissional e começo:
— Bom dia. O que pretende exatamente?
E é aqui que começa a verdadeira aventura.
Porque “fazer o IMPIC” pode querer dizer umas quantas coisas diferentes.
Pode ser alvará, certificado, alteração de classe, renovação, habilitações, documentação...
Mas quem está do outro lado acha que IMPIC é uma coisa que se faz, como quem vai à padaria:
— “Queria fazer o IMPIC.”
— “É para levar ou comer aqui?” 😂
Às vezes tenho vontade de dizer:
“Claro! É já a seguir. Quer o IMPIC simples ou com molho?”
Ou então:
“Sem problema. Arranje uns quilos de cimento, areia, brita e ferro e vá lá fazer o IMPIC.”
Mas, infelizmente, há profissões em que não podemos dizer tudo aquilo que pensamos.
E ainda bem.
Porque se disséssemos sempre o primeiro pensamento que nos passa pela cabeça, provavelmente havia muito menos gente a trabalhar em atendimento ao público. 😂
E depois há aquela maravilhosa capacidade que algumas pessoas têm de começar uma conversa pelo meio.
Nós temos de descobrir:
Quem é? O que pretende? É empresa ou particular? Já tem alvará? Quer pedir um novo?
Quer alterar? Para que atividade? Que classe? Que documentos tem? O que lhe pediram?
E, se tivermos sorte, lá para o fim da conversa descobrimos finalmente aquilo que a pessoa queria.
Ou não.
Porque às vezes termina com:
— “Ah, não sei. Só me disseram para ligar para aí e fazer o IMPIC.”
Excelente.
Adoro quando me dão todas as informações necessárias para resolver um problema.
Ou seja: nenhuma. 😂
E eu continuo ali, profissional, educada, paciente...
Enquanto a minha versão interior já está a construir uma obra inteira:
“Olhe, faça assim: leva 20 sacos de cimento, 2 toneladas de areia, umas carradas de brita, ferro de 12 e depois aparece aqui outra vez. Logo vemos do IMPIC.”
Mas pronto.
Respira-se fundo.
Explica-se.
Pergunta-se.
Volta-se a explicar.
E lá se chega ao verdadeiro assunto.
Porque trabalhar com pessoas tem destas coisas.
Há quem comece uma conversa com um “Bom dia, precisava de esclarecer uma dúvida”.
E há quem entre de rompante:
“QUERO FAZER O IMPIC.”
E nós?
Nós fazemos o que podemos.
Sorrimos por fora, construímos uma obra com cimento e brita por dentro e seguimos a trabalhar. 😂
Porque, afinal, o cliente pode não saber exatamente o que quer...
mas nós temos de descobrir.
E, de preferência, sem lhe entregar também o cimento, a areia e a brita. 😜
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