sexta-feira, 11 de setembro de 2026

“Quero fazer o IMPIC.”

 É assim que começam algumas conversas.

Não é “Bom dia”. Não é “Boa tarde”. Não é sequer um “Olá”.

É simplesmente:

— Quero fazer o IMPIC.

E eu fico a olhar para o telefone/computador a pensar:

“Muito bem… e eu quero ganhar o Euromilhões. Estamos os dois com desejos.” 😂

Mas atenção, isto é só o que penso.

Porque aquilo que digo é, naturalmente, muito mais simpático.

Lá faço a minha melhor cara de profissional e começo:

— Bom dia. O que pretende exatamente?

E é aqui que começa a verdadeira aventura.

Porque “fazer o IMPIC” pode querer dizer umas quantas coisas diferentes.

Pode ser alvará, certificado, alteração de classe, renovação, habilitações, documentação...

Mas quem está do outro lado acha que IMPIC é uma coisa que se faz, como quem vai à padaria:

— “Queria fazer o IMPIC.”

— “É para levar ou comer aqui?” 😂

Às vezes tenho vontade de dizer:

“Claro! É já a seguir. Quer o IMPIC simples ou com molho?”

Ou então:

“Sem problema. Arranje uns quilos de cimento, areia, brita e ferro e vá lá fazer o IMPIC.”

Mas, infelizmente, há profissões em que não podemos dizer tudo aquilo que pensamos.

E ainda bem.

Porque se disséssemos sempre o primeiro pensamento que nos passa pela cabeça, provavelmente havia muito menos gente a trabalhar em atendimento ao público. 😂

E depois há aquela maravilhosa capacidade que algumas pessoas têm de começar uma conversa pelo meio.

Nós temos de descobrir:

Quem é? O que pretende? É empresa ou particular? Já tem alvará? Quer pedir um novo?

Quer alterar? Para que atividade? Que classe? Que documentos tem? O que lhe pediram?

E, se tivermos sorte, lá para o fim da conversa descobrimos finalmente aquilo que a pessoa queria.

Ou não.

Porque às vezes termina com:

— “Ah, não sei. Só me disseram para ligar para aí e fazer o IMPIC.”

Excelente.

Adoro quando me dão todas as informações necessárias para resolver um problema.

Ou seja: nenhuma. 😂

E eu continuo ali, profissional, educada, paciente...

Enquanto a minha versão interior já está a construir uma obra inteira:

“Olhe, faça assim: leva 20 sacos de cimento, 2 toneladas de areia, umas carradas de brita, ferro de 12 e depois aparece aqui outra vez. Logo vemos do IMPIC.”

Mas pronto.

Respira-se fundo.

Explica-se.

Pergunta-se.

Volta-se a explicar.

E lá se chega ao verdadeiro assunto.

Porque trabalhar com pessoas tem destas coisas.

Há quem comece uma conversa com um “Bom dia, precisava de esclarecer uma dúvida”.

E há quem entre de rompante:

“QUERO FAZER O IMPIC.”

E nós?

Nós fazemos o que podemos.

Sorrimos por fora, construímos uma obra com cimento e brita por dentro e seguimos a trabalhar. 😂

Porque, afinal, o cliente pode não saber exatamente o que quer...

mas nós temos de descobrir.

E, de preferência, sem lhe entregar também o cimento, a areia e a brita. 😜

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