domingo, 18 de outubro de 2026

O Balcão de Pedra e as Portadas Azuis

(Imagem criada por IA, que me fez chorar porque não tenho uma única foto da taberna e o arco era igualzinho ao criado pela IA)

Naqueles invernos do início dos anos 80, o tempo tinha outro ritmo. O frio que vinha de fora era combatido na cozinha, ao redor de uma lareira onde a avó Maria José punha a cafeteira ao lume. Esperava-se que a água fervesse, deitava-se a colher de sopa de café e deixava-se assentar. Ali, com apenas cinco anos, saboreava-se o pão quente com manteiga mergulhado no café. Uma memória curta no tempo, mas eterna nos sentidos.

À porta, a vida da aldeia acontecia. O Zé Briche, o padeiro, cumpria a sua rota diária e fazia a paragem obrigatória na taberna do avô para "matar o bicho" com um copinho de aguardente ou um eduardinho. A taberna era o centro do mundo dos homens que ficavam na terra — o bater firme dos copos no balcão de pedra preta, o tilintar das moedas no jogo e, lá fora, o som seco das malhas no jogo do Chinquilho.
Era uma aldeia quase sem carros, habitada por crianças, velhotes e pelo avô. Durante nove meses do ano, os homens andavam longe, nos pinhais do Alentejo, a trabalhar na resina. As famílias ficavam entregues a si mesmas, e era aí que a mercearia da avó, com as suas portadas de madeira azuis, se tornava o porto de abrigo.
Tudo o que se consumia era pesado na balança branca de dois pratos, que calculava os preços na escala pré-inscrita. E como o dinheiro só chegava quando os homens regressavam da resina, a avó abria o livro de fiado. Ali, no papel pardo, embrulhava-se a dignidade e a sobrevivência de uma comunidade inteira. Passados mais de 40 anos, entre os exemplares de cartuchos que ainda guardo, o livro mantém os seus registos a caneta e apontamentos a lápis. Há contas que o tempo já perdoou, mas que a história nunca apagará.
No corredor de madeira que ligava os dois mundos — a taberna e a mercearia —, ficava a gaveta do dinheiro e o telefone preto de auscultador. Aquele aparelho particular era o único da terra. Quando o toque estridente e mecânico quebrava o silêncio, ou quando o TRRIIIIIIIIMMMMMM da campainha da porta ecoava pela rua fora, a avó saía. Fizesse sol ou chuva, fosse dia ou noite, corria a dar o recado. Era ali, naquele corredor, que a aldeia se ligava a Lisboa, ao Brasil, à América ou aos jovens no Ultramar. Era ali que chegavam as boas e as más notícias do mundo.
Hoje, quando o vento sopra forte e nos traz o medo e as imagens de árvores arrancadas pela raiz, são estas outras raízes que nos seguram: o cheiro do café a assentar, o calor da lareira, a pedra preta do balcão e a generosidade de um tempo em que a vida se geria fio a fio, com a palavra escrita num cartucho de papel.

Sem comentários:

Enviar um comentário