Treze horas com cinquenta minutos… convosco, Marisa Reis, nos 100.1 da Rádio Dom Fuas!
Ainda hoje, quando digo estas palavras, parece que estou de volta a 1998, ao estúdio da Rádio Dom Fuas, pronta para mais uma emissão das Tardes do Alcaide.
E não, não estou a inventar! Ainda me lembro da frase de abertura, da frequência e até da hora. Há coisas que ficam guardadas na memória como se tivessem acontecido ontem. Outras… bom, essas precisam de uma pesquisa no Google! 😂
1998: entre a universidade e os 100.1
Na altura, frequentava o quarto ano de Informática de Gestão no ISLA de Leiria e comecei a trabalhar como locutora na Rádio Dom Fuas.
Durante quatro horas, às vezes mais, a música, os ouvintes e os pequenos momentos de conversa faziam parte das minhas tardes.
A programação estava dividida por estilos musicais. Das 14h às 16h, tínhamos música internacional; das 16h às 18h, era a vez da música portuguesa. E, das 18h às 19h, chegava um dos momentos mais especiais da emissão: os Discos Pedidos.
Era a altura em que os ouvintes pediam as músicas que queriam ouvir e dedicavam-nas a alguém. Um namorado, uma namorada, um marido, uma mulher, um amigo ou simplesmente alguém de quem se lembravam naquele momento.
Hoje temos mensagens instantâneas, redes sociais e músicas enviadas por links. Naquele tempo, pedir uma música na rádio tinha outro encanto. Havia a expectativa de ouvir o nome anunciado, a curiosidade de saber se a dedicatória seria lida e aquela alegria de perceber que alguém se tinha lembrado de nós.
E, claro, também havia passatempos! Porque uma rádio local não era apenas música: era companhia, proximidade e uma forma de manter a comunidade ligada.
A banda sonora de uma época
Se fecharmos os olhos e voltarmos a 1998, começam logo a aparecer algumas músicas que fizeram parte daqueles anos.
You're My Heart, You're My Soul, dos Modern Talking, é daquelas que basta ouvir os primeiros acordes para nos transportar imediatamente para outra época.
E depois havia a música portuguesa e brasileira que também nos acompanhava.
Netinho e o seu Oh Mila, Emmanuel com Felicidade, Mónica Sintra, os Anjos, Santa Maria… Canções diferentes, artistas diferentes, mas todas capazes de despertar recordações.
Algumas músicas ficam associadas a uma determinada fase da vida. Basta voltarmos a ouvi-las para nos lembrarmos de onde estávamos, do que fazíamos e até de pessoas que já não vemos há anos.
A música tem esta capacidade maravilhosa de abrir gavetas da memória que julgávamos fechadas.
Os meus colegas já estavam fartos de me ouvir!
Mas trabalhar na rádio trouxe-me uma consequência inesperada.
Na universidade, tínhamos de apresentar muitos trabalhos. Como eu já estava no quarto ano e os meus colegas me conheciam bem, estavam, digamos, um bocadinho cansados de ouvir a minha voz! 😂
Até que chegou o primeiro trabalho que apresentei depois de começar a trabalhar na Rádio Dom Fuas.
E o que fiz?
Usei a minha voz de locutora!
Aquela voz mais modulada, com uma dicção cuidada, as pausas nos sítios certos e uma entoação mais controlada, sem tantas subidas e descidas como fazemos normalmente numa conversa.
Resultado? Adoraram!
Afinal, a colega de quem já estavam cansados de ouvir a voz tinha uma versão alternativa que parecia muito mais interessante. 😂
Foi aí que percebi que falar bem em público não é apenas dizer as palavras corretamente. É saber como as dizer, quando fazer uma pausa e como transmitir a mensagem para que quem nos ouve consiga acompanhar e compreender.
A rádio, o canto coral e uma voz que nunca ficou parada
Mas a história da minha voz não terminou quando deixei a Rádio Dom Fuas!
Entre 2001 e 2005, fiz parte do Grupo Coral Vila Forte, de Porto de Mós. Foram mais alguns anos a manter o contacto com a música e a trabalhar a voz, desta vez através do canto coral.
Afinal, a modulação e a entoação não se aprendem apenas atrás de um microfone. Também se desenvolvem a cantar, a controlar a respiração, a respeitar os tempos, a ouvir os outros e a perceber como a nossa voz se encaixa no conjunto.
Por isso, quando hoje vou ler à missa ou participar nos cânticos, não é apenas a locutora de 1998 que aparece. Também lá está a experiência dos anos em que cantei no Grupo Coral Vila Forte.
A rádio, o canto coral e, agora, as leituras da missa são experiências diferentes, mas todas me ensinaram a mesma coisa: não basta emitir sons, é preciso saber transmiti-los.
E, pelos vistos, consegui conservar essa aprendizagem ao longo dos anos.
O meu marido é que continua a ter de se habituar à ideia de que, quando pego num texto para ler na igreja, posso estar a transmitir serenidade, emoção ou até uma chamada de atenção… mas não estou necessariamente a ralhar com ninguém! 😂
Dos 100.1 ao ambão da igreja
E agora vem a parte engraçada desta história.
Passaram-se quase três décadas e aquela voz continua comigo.
Hoje, quando vou ler à missa, uso a mesma técnica: faço as pausas certas, respeito a pontuação, dou a entoação que o texto pede e procuro transmitir o seu significado.
Se o texto é sereno, leio com serenidade. Se pede reflexão, dou espaço às palavras. E, se é uma chamada de atenção à assembleia, então é para ser lido como tal!
O meu marido, que me ouve, diz que parece que estou a ralhar com as pessoas. 😂
Eu cá acho que não estou a ralhar com ninguém. Estou simplesmente a ler com a entoação adequada!
Até porque, segundo me dizem, gostam de me ouvir ler e cantar. Portanto, alguma coisa devo estar a fazer bem!
Talvez o contraste seja maior porque há quem leia tão baixinho que metade da assembleia não percebe o que foi dito. Eu, pelo contrário, levo comigo os ensinamentos daqueles tempos de rádio: a voz tem de chegar às pessoas, as palavras têm de se perceber e o texto tem de ganhar vida.
Afinal, a rádio nunca saiu de mim
Quando comecei a trabalhar na Rádio Dom Fuas, em 1998, não imaginava que aquela experiência continuaria a acompanhar-me tantos anos depois.
Estava a estudar Informática de Gestão, a construir o meu percurso profissional e, pelo meio, tinha quatro horas de rádio para preencher com música, conversas, passatempos e pedidos dos ouvintes.
Hoje, já não apresento as Tardes do Alcaide, nem anuncio os Discos Pedidos. Mas continuo a usar a voz que aprendi a trabalhar naquela altura.
A diferença é que agora o microfone foi substituído pelo ambão, os ouvintes deram lugar à assembleia e a programação musical deu lugar às leituras e aos cânticos da missa.
E o meu marido continua a achar que estou a ralhar com as pessoas! 😂
Talvez um dia volte a ouvir a minha voz numa gravação antiga da Rádio Dom Fuas. Seria uma viagem no tempo e tanto!
Até lá, fica a certeza de que algumas experiências nunca nos abandonam. Transformam-se, acompanham-nos e reaparecem quando menos esperamos.
E vocês, ainda se lembram das músicas que ouviam em 1998? E dos tempos em que se telefonava para a rádio para pedir uma música e dedicá-la a alguém?
Contem-me tudo! Que eu já estou aqui a recordar os meus tempos de locutora… e a preparar a próxima leitura da missa com a mesma voz dos 100.1! 😁
Um beijinho nostálgico,
Marisa

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