quarta-feira, 21 de outubro de 2026

Dos 100.1 ao ambão: quase 30 anos depois, a voz de rádio continua no ativo!


Treze horas com cinquenta minutos… convosco, Marisa Reis, nos 100.1 da Rádio Dom Fuas!

Ainda hoje, quando digo estas palavras, parece que estou de volta a 1998, ao estúdio da Rádio Dom Fuas, pronta para mais uma emissão das Tardes do Alcaide.

E não, não estou a inventar! Ainda me lembro da frase de abertura, da frequência e até da hora. Há coisas que ficam guardadas na memória como se tivessem acontecido ontem. Outras… bom, essas precisam de uma pesquisa no Google! 😂

1998: entre a universidade e os 100.1

Na altura, frequentava o quarto ano de Informática de Gestão no ISLA de Leiria e comecei a trabalhar como locutora na Rádio Dom Fuas.

Durante quatro horas, às vezes mais, a música, os ouvintes e os pequenos momentos de conversa faziam parte das minhas tardes.

A programação estava dividida por estilos musicais. Das 14h às 16h, tínhamos música internacional; das 16h às 18h, era a vez da música portuguesa. E, das 18h às 19h, chegava um dos momentos mais especiais da emissão: os Discos Pedidos.

Era a altura em que os ouvintes pediam as músicas que queriam ouvir e dedicavam-nas a alguém. Um namorado, uma namorada, um marido, uma mulher, um amigo ou simplesmente alguém de quem se lembravam naquele momento.

Hoje temos mensagens instantâneas, redes sociais e músicas enviadas por links. Naquele tempo, pedir uma música na rádio tinha outro encanto. Havia a expectativa de ouvir o nome anunciado, a curiosidade de saber se a dedicatória seria lida e aquela alegria de perceber que alguém se tinha lembrado de nós.

E, claro, também havia passatempos! Porque uma rádio local não era apenas música: era companhia, proximidade e uma forma de manter a comunidade ligada.

A banda sonora de uma época

Se fecharmos os olhos e voltarmos a 1998, começam logo a aparecer algumas músicas que fizeram parte daqueles anos.

You're My Heart, You're My Soul, dos Modern Talking, é daquelas que basta ouvir os primeiros acordes para nos transportar imediatamente para outra época.

E depois havia a música portuguesa e brasileira que também nos acompanhava.

Netinho e o seu Oh Mila, Emmanuel com Felicidade, Mónica Sintra, os Anjos, Santa Maria… Canções diferentes, artistas diferentes, mas todas capazes de despertar recordações.

Algumas músicas ficam associadas a uma determinada fase da vida. Basta voltarmos a ouvi-las para nos lembrarmos de onde estávamos, do que fazíamos e até de pessoas que já não vemos há anos.

A música tem esta capacidade maravilhosa de abrir gavetas da memória que julgávamos fechadas.

Os meus colegas já estavam fartos de me ouvir!

Mas trabalhar na rádio trouxe-me uma consequência inesperada.

Na universidade, tínhamos de apresentar muitos trabalhos. Como eu já estava no quarto ano e os meus colegas me conheciam bem, estavam, digamos, um bocadinho cansados de ouvir a minha voz! 😂

Até que chegou o primeiro trabalho que apresentei depois de começar a trabalhar na Rádio Dom Fuas.

E o que fiz?

Usei a minha voz de locutora!

Aquela voz mais modulada, com uma dicção cuidada, as pausas nos sítios certos e uma entoação mais controlada, sem tantas subidas e descidas como fazemos normalmente numa conversa.

Resultado? Adoraram!

Afinal, a colega de quem já estavam cansados de ouvir a voz tinha uma versão alternativa que parecia muito mais interessante. 😂

Foi aí que percebi que falar bem em público não é apenas dizer as palavras corretamente. É saber como as dizer, quando fazer uma pausa e como transmitir a mensagem para que quem nos ouve consiga acompanhar e compreender.

A rádio, o canto coral e uma voz que nunca ficou parada

Mas a história da minha voz não terminou quando deixei a Rádio Dom Fuas!

Entre 2001 e 2005, fiz parte do Grupo Coral Vila Forte, de Porto de Mós. Foram mais alguns anos a manter o contacto com a música e a trabalhar a voz, desta vez através do canto coral.

Afinal, a modulação e a entoação não se aprendem apenas atrás de um microfone. Também se desenvolvem a cantar, a controlar a respiração, a respeitar os tempos, a ouvir os outros e a perceber como a nossa voz se encaixa no conjunto.

Por isso, quando hoje vou ler à missa ou participar nos cânticos, não é apenas a locutora de 1998 que aparece. Também lá está a experiência dos anos em que cantei no Grupo Coral Vila Forte.

A rádio, o canto coral e, agora, as leituras da missa são experiências diferentes, mas todas me ensinaram a mesma coisa: não basta emitir sons, é preciso saber transmiti-los.

E, pelos vistos, consegui conservar essa aprendizagem ao longo dos anos.

O meu marido é que continua a ter de se habituar à ideia de que, quando pego num texto para ler na igreja, posso estar a transmitir serenidade, emoção ou até uma chamada de atenção… mas não estou necessariamente a ralhar com ninguém! 😂

Dos 100.1 ao ambão da igreja

E agora vem a parte engraçada desta história.

Passaram-se quase três décadas e aquela voz continua comigo.

Hoje, quando vou ler à missa, uso a mesma técnica: faço as pausas certas, respeito a pontuação, dou a entoação que o texto pede e procuro transmitir o seu significado.

Se o texto é sereno, leio com serenidade. Se pede reflexão, dou espaço às palavras. E, se é uma chamada de atenção à assembleia, então é para ser lido como tal!

O meu marido, que me ouve, diz que parece que estou a ralhar com as pessoas. 😂

Eu cá acho que não estou a ralhar com ninguém. Estou simplesmente a ler com a entoação adequada!

Até porque, segundo me dizem, gostam de me ouvir ler e cantar. Portanto, alguma coisa devo estar a fazer bem!

Talvez o contraste seja maior porque há quem leia tão baixinho que metade da assembleia não percebe o que foi dito. Eu, pelo contrário, levo comigo os ensinamentos daqueles tempos de rádio: a voz tem de chegar às pessoas, as palavras têm de se perceber e o texto tem de ganhar vida.

Afinal, a rádio nunca saiu de mim

Quando comecei a trabalhar na Rádio Dom Fuas, em 1998, não imaginava que aquela experiência continuaria a acompanhar-me tantos anos depois.

Estava a estudar Informática de Gestão, a construir o meu percurso profissional e, pelo meio, tinha quatro horas de rádio para preencher com música, conversas, passatempos e pedidos dos ouvintes.

Hoje, já não apresento as Tardes do Alcaide, nem anuncio os Discos Pedidos. Mas continuo a usar a voz que aprendi a trabalhar naquela altura.

A diferença é que agora o microfone foi substituído pelo ambão, os ouvintes deram lugar à assembleia e a programação musical deu lugar às leituras e aos cânticos da missa.

E o meu marido continua a achar que estou a ralhar com as pessoas! 😂

Talvez um dia volte a ouvir a minha voz numa gravação antiga da Rádio Dom Fuas. Seria uma viagem no tempo e tanto!

Até lá, fica a certeza de que algumas experiências nunca nos abandonam. Transformam-se, acompanham-nos e reaparecem quando menos esperamos.

E vocês, ainda se lembram das músicas que ouviam em 1998? E dos tempos em que se telefonava para a rádio para pedir uma música e dedicá-la a alguém?

Contem-me tudo! Que eu já estou aqui a recordar os meus tempos de locutora… e a preparar a próxima leitura da missa com a mesma voz dos 100.1! 😁

Um beijinho nostálgico,

Marisa

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