terça-feira, 27 de outubro de 2026

15 anos do meu terceiro anjinho ❤️

Hoje, 27 de outubro, faz 15 anos que perdi o meu terceiro bebé.

Quinze anos. Parece muito tempo, e é. Entretanto, a vida continuou, os anos passaram, o meu filho cresceu e tantas outras coisas aconteceram. Mas há datas que não precisam de aparecer assinaladas no calendário para continuarem gravadas na nossa memória.

Esta é uma delas.

Há quinze anos, uma gravidez que deveria trazer a alegria de esperar mais um filho transformou-se numa experiência que nunca imaginei viver: uma gravidez molar.

Quando uma gravidez se transforma num pesadelo

Uma gravidez molar, ou mola hidatiforme, não é uma gravidez normal. É uma alteração do tecido que deveria dar origem à placenta e que, em vez de permitir o desenvolvimento normal da gravidez, cresce de forma anormal.

No meu caso, o que deveria ser o início de uma nova vida acabou por se transformar num problema de saúde que exigiu tratamento e acompanhamento médico.

Não foi apenas a perda de um bebé. Foi também o medo, a incerteza e a possibilidade de a situação ter consequências muito mais graves.

A gravidez molar pode, em alguns casos, evoluir para uma doença trofoblástica gestacional persistente, que exige tratamento adicional. Por isso, o acompanhamento médico e a vigilância dos valores da hormona beta-hCG são fundamentais.

Mas há uma parte de tudo isto que não aparece nas análises, nas ecografias ou nos relatórios médicos.

A parte que fica cá dentro.

Aquela que não se resolve com uma consulta, que não desaparece quando os valores das análises regressam ao normal e que não tem um prazo definido para terminar.

A perda.

O terceiro...

Já não era a primeira vez que passava por uma perda gestacional.

E talvez seja difícil explicar a quem nunca viveu uma situação destas o que significa perder uma gravidez, muito menos quando já aconteceu antes.

Há quem pense que, depois de uma perda, a mulher fica mais preparada para enfrentar outra. Como se a experiência anterior servisse de treino para a seguinte.

Não serve.

Cada gravidez é uma esperança diferente. Cada bebé representa um futuro que começamos a imaginar, mesmo quando ainda é demasiado cedo para contar a alguém.

E cada perda é uma história que fica por viver.

Quando aconteceu a terceira, já conhecia a dor de perder. Mas isso não tornou a experiência mais fácil.

Pelo contrário, há momentos em que nos perguntamos porquê, o que fizemos de errado e se alguma vez vamos conseguir deixar de ter medo.

E, quando a perda acontece por uma gravidez molar, junta-se a tudo isto uma realidade difícil de explicar: não estamos apenas a lidar com o fim de uma gravidez, mas também com uma doença que pode exigir vigilância durante meses e que nos obriga a viver com a incerteza.

Foi há quinze anos.

E continuo a lembrar-me.

Não foi só o bebé que morreu...

Em 2019, quando assinalei mais um aniversário desta perda, escrevi aqui no blogue uma frase que continua a fazer sentido:

«Não foi só o bebé que morreu...»

Na altura, referia-me também à alegria que perdi e à confiança que ficou abalada.

Porque há perdas que mudam a forma como olhamos para a vida.

Podemos continuar a trabalhar, a cuidar da família, a rir de uma piada, a fazer planos e a viver aparentemente como antes. Podemos até passar longos períodos sem pensar conscientemente no que aconteceu.

Mas isso não significa que tenhamos voltado a ser exatamente as mesmas pessoas.

Há coisas que mudam dentro de nós e que os outros nem sempre conseguem ver.

E talvez uma das partes mais difíceis seja perceber que o mundo continua a girar normalmente, mesmo quando o nosso parece ter parado por uns instantes.

As pessoas continuam com as suas vidas, os dias sucedem-se e, muitas vezes, espera-se que nós também sigamos em frente.

E seguimos.

Porque a vida não nos dá grande alternativa.

Mas seguir em frente não significa esquecer. Também não significa que a perda tenha deixado de importar.

Significa apenas que aprendemos, à nossa maneira, a viver com aquilo que aconteceu.

Quinze anos depois

Hoje não vou dizer que o tempo cura tudo, porque não acredito que seja assim tão simples.

O tempo muda a forma como vivemos as coisas, dá-nos outras perspetivas e permite-nos construir novas memórias. Mas não apaga necessariamente aquilo que nos marcou.

Há anos em que esta data passa de uma forma mais tranquila. Noutros, basta uma pequena coisa para trazer tudo de volta.

E, por vezes, nem sabemos bem explicar porquê.

Em 2022, escrevi aqui que estava mais triste na véspera do aniversário da perda. Nem sabia se era por causa da data ou por já ter passado por perdas demais.

Talvez seja precisamente isso: não existe uma maneira certa de viver o luto, nem um calendário que nos diga quando devemos deixar de sentir.

Quinze anos depois, continuo a lembrar-me daquele bebé que não chegou a nascer.

O meu terceiro anjinho.

Não sei quem teria sido, de quem teria herdado os olhos, se seria mais parecido comigo ou com o pai, se seria sossegado ou traquina. Não sei que lugar teria ocupado na nossa família, nem que histórias teríamos para contar.

São perguntas para as quais nunca terei resposta.

E é também isso que custa: não perder apenas aquilo que existiu, mas tudo aquilo que poderia ter existido.

Hoje, o meu filho já tem quase 21 anos. A vida trouxe-nos muitos outros momentos, alegrias, preocupações e desafios. O tempo passou depressa, como costuma acontecer quando olhamos para trás.

Mas este pequeno pedaço da minha história continua a fazer parte de mim.

Não preciso de falar dele todos os dias para me lembrar. Não preciso de chorar para provar que não esqueci. E não tenho de estar triste todos os anos da mesma maneira.

Hoje, simplesmente, lembro-me.

E escrevo.

Porque este blogue sempre foi um bocadinho da minha vida, com os dias bons, os maus, as conquistas, os desabafos e as coisas que nem sempre conseguimos dizer em voz alta.

E porque, se há quinze anos perdi um bebé, não quero que a sua existência na minha história se resuma apenas à dor da sua perda.

Foi desejado. Foi esperado. E teve um lugar no meu coração.

Quinze anos depois, continuo a lembrar-me de ti, meu terceiro anjinho. ❤️

E, se estas palavras chegarem a alguma mulher que tenha passado por uma perda gestacional, quero que saiba que não está sozinha.

Não importa se a gravidez tinha poucas semanas, se já havia um nome escolhido ou se quase ninguém sabia que estava grávida.

A dor não se mede pelo número de semanas, nem o amor pelo tempo que tivemos.

Cada história é diferente. Cada perda também.

E ninguém tem o direito de nos dizer quanto tempo devemos precisar para aprender a viver com ela.

Hoje, 27 de outubro, passam quinze anos.

E eu continuo aqui, a lembrar-me.

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